Blog Felipe Matos

71% dos Brasileiros Já Usam Chatbots de IA Enquanto Jovens Trocam Terapeutas por Algoritmos — Por Que Estas 24 Horas Revelam a Virada da Experimentação Para a Adoção Crítica

janeiro 20, 2026 | by Matos AI

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Nas últimas 24 horas, o Brasil emergiu como laboratório vivo da inteligência artificial. Enquanto 71% dos adultos conectados já utilizam chatbots de IA — índice superior à média mundial de 62% — uma tensão fundamental se revelou: estamos usando a tecnologia para aprender e criar, ou para terceirizar nossa humanidade?

A resposta não é simples. E é justamente essa complexidade que define o momento mais importante da IA no Brasil desde que comecei a trabalhar com esta tecnologia.

O Brasil Lidera, Mas Para Onde Estamos Indo?

Segundo a terceira edição do estudo Nossa Vida com IA, realizado pela Ipsos a pedido do Google, os brasileiros não estão apenas experimentando — estamos adotando. 79% dos usuários já utilizam ferramentas de IA como apoio ao aprendizado e à educação, superando o entretenimento (74%) como principal motivação.


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Isso é uma mudança de paradigma. Em 2024, a principal porta de entrada era o entretenimento. Em 2025, passou a ser o aprendizado. Saímos da curiosidade e entramos na aplicação prática.

Mas existe um lado sombrio nessa história.

Quando a IA Substitui o Vínculo Humano

Um estudo publicado no periódico BMJ e amplamente discutido no Brasil aponta que um terço dos adolescentes usa IA para interação social. Pior: um em cada dez relatou que as conversas com chatbots são mais satisfatórias do que as com humanos.

A Prefeitura de Manaus emitiu um alerta claro: a IA não tem sentimento, consciência, vínculo ou responsabilidade clínica. Ela pode induzir uma falsa sensação de cuidado e não consegue reconhecer a gravidade de situações críticas, como risco de suicídio.

Trabalho com empresas e governos há anos, e vejo esse padrão se repetir: a tecnologia é adotada antes da reflexão sobre suas consequências. A IA oferece paciência infinita, sim — mas também pode criar uma geração que não sabe lidar com conflitos naturais de interações humanas reais.

O impacto em longo prazo no desenvolvimento dos jovens ainda é desconhecido. E isso deveria nos deixar vigilantes, não paralisados.

A Divisão Digital Se Aprofunda

Uma pesquisa da Nexus com 2.012 brasileiros revelou que 30% já recorreram à IA para compreender temas complexos, como política, economia e ciências. Mas a distribuição é desigual:

  • 40% dos jovens de 18 a 30 anos usam IA para aprendizado complexo
  • Apenas 13% dos baby boomers fazem o mesmo
  • 39% com ensino superior e alta renda usam a tecnologia para aprender
  • Contra 20% com ensino fundamental ou baixa renda

Isso não é apenas uma divisão digital. É uma divisão cognitiva. Quem tem acesso à IA para aprender temas complexos está construindo uma vantagem competitiva permanente. Quem não tem, fica para trás — e a distância só aumenta.

No meu trabalho com ecossistemas de inovação, vejo essa realidade todos os dias. A democratização do acesso é tão importante quanto o desenvolvimento da tecnologia em si.

O Trabalho Transformado: 70% Já Usam IA Profissionalmente

O Valor Econômico trouxe outro dado impressionante: 70% dos profissionais brasileiros utilizaram IA pelo menos uma vez nos últimos 12 meses, número bem acima da média global de 54%.

Os benefícios reportados são concretos:

  • 83% dos brasileiros enxergam melhorias na qualidade do trabalho (média global: 75%)
  • 79% relatam ganhos de produtividade (média global: 74%)
  • Três em cada quatro usuários brasileiros recorrem à IA para auxiliar em tarefas de trabalho

Mas a pesquisa, realizada com 49,8 mil profissionais de 48 países, aponta que é preciso um maior apoio das chefias para acelerar a adoção. A tecnologia está disponível. O gap está na liderança.

É aqui que entra o verdadeiro desafio: como preparar líderes para uma transformação que não é mais futura, mas presente?

Do Corte de Custos à Criação de Valor

Um artigo na VEJA propôs uma mudança de perspectiva fundamental: em vez de usar IA apenas para cortar custos, devemos vê-la como alavanca de inovação que cria valor novo, abre mercados e aumenta a produtividade humana sem precarizar o trabalho.

Dados do setor jurídico ilustram essa transformação:

  • A adoção de IA generativa em organizações jurídicas saltou de 14% em 2024 para 26% em 2025 (Thomson Reuters)
  • 78% dos profissionais acreditam que a IA será central em seu trabalho nos próximos cinco anos
  • Profissionais usando IA podem economizar até cinco horas por semana, gerando um valor anual de US$ 19 mil por pessoa
  • O mercado de legal tech deve superar US$ 50 bilhões até 2027 (Gartner)

O ciclo virtuoso se constrói quando a IA é usada para liberar o humano para trabalho de maior valor. Isso expande o setor e protege o emprego no longo prazo. A IA é um amplificador da intenção do sistema: ela inova mais rápido em um sistema que já inova.

Essa é a perspectiva que trago para empresas no meu trabalho de consultoria: IA não é sobre substituir pessoas, mas sobre amplificar seu potencial.

A China Avança na IA Física

Enquanto isso, a China está saindo na frente ao integrar IA em produtos físicos: de carros a comedouros de pássaros, passando por máquinas de cortar cabelo e robôs humanoides.

O mercado chinês de hardware de IA (excluindo smartphones e automóveis) deve crescer 18% ao ano até 2030, partindo de US$ 153 bilhões em 2025 (Beijing Runto Technology).

A sólida sinergia entre hardware e software na cadeia de suprimentos de manufatura de Shenzhen está acelerando a adoção de IA física. É uma corrida geopolítica onde a capacidade de produzir itens tangíveis com IA embutida pode definir o domínio computacional futuro.

Para o Brasil, a lição é clara: não basta ter usuários — precisamos ter produção local, governança clara e soberania tecnológica.

Casos de Uso Que Valem a Pena

A adoção prática da IA no Brasil está acontecendo em múltiplas frentes:

Viagens: 23% dos viajantes já usaram IA para auxiliar em tarefas durante a jornada; 62% classificam a tecnologia como “Muito útil” ou “Indispensável”.

Negócios Solo: A Revista PEGN listou sete ferramentas que permitem que um único empreendedor execute tarefas que antes exigiam equipes inteiras — de identificação de tendências a automação de fluxos.

B2B: A IA está sendo integrada ao planejamento estratégico, permitindo antecipar demandas e identificar padrões de comportamento em ciclos de compra longos.

Esses usos mostram maturidade. Não é mais sobre impressionar com truques — é sobre resolver problemas reais.

A Ciência Avança, Mas Com Nuances

Uma discussão importante surgiu quando a startup Harmonic afirmou que sua IA Aristotle resolveu um “problema de Erdős”. O matemático Terence Tao viu a solução como um aluno que decorou muito, mas não tem entendimento profundo.

Mas como apontou o Dr. Derya Unutmaz, IAs atuais são ferramentas poderosas que sugerem hipóteses ou experimentos que humanos não consideraram, agilizando a pesquisa — permitindo fazer 5 experimentos em vez de 50.

A questão de gerar ideias verdadeiramente novas é secundária. A IA já é uma ferramenta poderosa para acelerar e refinar a pesquisa quando usada por cientistas experientes.

Regulação e Governança: O Desafio Urgente

Um artigo no JOTA discutiu o potencial da IA para apoiar decisões regulatórias complexas. A regulação exige instrumentos como AIRs e consultas públicas, que geram alto custo cognitivo devido ao volume de dados.

A IA pode mitigar esses entraves ao reduzir custos operacionais e apoiar análises complexas. Mas existe um risco: o uso desses instrumentos pode se tornar apenas formal, sem ganhos reais na qualidade decisória.

O desafio é integrar a IA de forma responsável para reduzir o descompasso entre forma e conteúdo nas decisões do Estado regulador. É uma oportunidade que não podemos desperdiçar.

A Reação Analógica

Curiosamente, uma tendência contrária emergiu: cansadas da onipresença da IA, pessoas estão optando por “estilos de vida analógicos”, especialmente a Geração Z.

Dados de mercado:

  • Buscas por “hobbies analógicos” na Michael’s aumentaram 136% em seis meses
  • Vendas de kits de artesanato aumentaram 86% em 2025
  • Buscas por kits de tricô aumentaram 1.200% em 2025

A motivação? Cansaço da rolagem infinita de notícias ruins e frustração com a falta de originalidade da IA generativa. O movimento busca saúde mental e reconexão com o mundo físico.

É um lembrete importante: a tecnologia deve servir à vida, não substituí-la.

O Que Fazer Com Tudo Isso?

Estas 24 horas revelaram uma virada fundamental: saímos da fase de experimentação e entramos na fase de adoção crítica. O Brasil lidera em uso, mas enfrenta desafios estruturais em equidade de acesso, governança e preparação de lideranças.

A IA não é mais uma promessa futura — é uma realidade presente que exige decisões conscientes:

  • Para líderes: Apoiar a adoção não significa apenas liberar ferramentas, mas criar contextos de uso, governança clara e capacitação contínua
  • Para educadores: Ensinar pensamento crítico sobre IA é tão importante quanto ensinar a usá-la
  • Para pais: Observar se o uso da tecnologia está gerando isolamento e buscar redes de apoio presenciais
  • Para empreendedores: Usar IA para criar valor novo, não apenas para cortar custos
  • Para formuladores de políticas públicas: Garantir governança responsável e acesso equitativo

No meu trabalho de mentoring e consultoria, ajudo executivos e empresas a navegarem essa transformação com clareza estratégica — saindo do hype para a aplicação responsável que gera valor real. Trabalho com organizações para desenhar governança de IA, identificar casos de uso prioritários e preparar equipes para a mudança cultural que a tecnologia exige.

Também ofereço cursos imersivos que capacitam líderes a entenderem não apenas o “como” da IA, mas o “quando” e “por quê” — porque a verdadeira vantagem competitiva está no julgamento humano sobre quando aplicar a tecnologia, não apenas em saber operá-la.

A IA vai amplificar as desigualdades existentes se não agirmos com intencionalidade. Mas também pode democratizar o acesso ao conhecimento, ampliar a produtividade humana e criar novas oportunidades — se escolhermos usá-la como alavanca de valor, não como substituta da humanidade.

A escolha é nossa. E o momento é agora.


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