Blog Felipe Matos

TSE Apressa Regras de IA Para Eleições 2026 Enquanto 70% dos Alunos Já Usam Ferramentas Sem Instrução — Por Que Estas 24 Horas Definem a Corrida Contra a Desinformação e o Atraso Educacional

janeiro 19, 2026 | by Matos AI

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As últimas 24 horas trouxeram uma combinação rara: urgência institucional e lacuna estrutural. Enquanto o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) corre para consolidar regras eficazes contra deepfakes e desinformação até 5 de março, 70% dos estudantes brasileiros do ensino médio já utilizam IA — mas apenas 32% receberam orientação da escola. Por que essa simultaneidade importa? Porque estamos enfrentando a mesma tecnologia em dois campos críticos — democracia e educação — mas com velocidades, recursos e clareza absolutamente desiguais.

Trabalho diariamente com empresas, governos e ecossistemas de inovação. E o que vejo nessas 24 horas não é apenas um conjunto disperso de notícias. É um retrato sistêmico de como o Brasil está lidando com a IA no momento mais delicado: quando a tecnologia já está nas mãos da população, mas as instituições ainda estão desenhando as regras do jogo.

A Corrida do TSE Contra o Relógio: Regras Para um Terreno Sem Mapa

Segundo especialistas ouvidos pelo Terra, o TSE enfrenta um desafio inédito: criar regras eficazes para o uso de inteligência artificial nas eleições de 2026 sem base regulatória prévia consolidada. As resoluções que vão orientar a Justiça Eleitoral precisam ser aprovadas até 5 de março, e o consenso entre juristas é que não haverá mudanças estruturais radicais em relação a 2024 — mas sim ajustes para conter a escala e sofisticação dos conteúdos sintéticos.


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A advogada Sabrina Veras, da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político (Abradep), resume o problema: “Conteúdos gerados pela IA generativa estão cada vez mais sofisticados e circulam em grande velocidade. É difícil rastrear a origem desse conteúdo, e isso exige uma resposta mais eficiente”. José Luiz Nunes, da FGV Direito Rio, complementa afirmando que o TSE deve seguir “uma linha parecida em termos estruturais” com as regras de 2024, pois não houve um avanço tecnológico transformativo desde então, apenas aperfeiçoamento.

Mas aqui está o ponto crucial: o TSE está circunscrito à legislação existente. Como destaca o especialista Massaro, um avanço mais robusto viria de uma regulação sobre as obrigações das plataformas em relação a conteúdos fabricados por IA. E há outra expectativa: como a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a responsabilidade das plataformas — que explicitamente excluiu a legislação eleitoral — vai impactar a esfera eleitoral.

Deepfakes e Desinformação: O Núcleo do Problema

Como mostra o R7, 54% dos brasileiros utilizaram ferramentas de IA generativa em 2024, percentual acima da média global de 48%, segundo pesquisa Ipsos e Google. Isso significa que a tecnologia já está massificada — mas sem capacitação ou instrução clara sobre os riscos.

O cientista político Gabriel Amaral, citado no mesmo texto, alerta: “Quando tudo pode ser fabricado com aparência de verdade, o eleitor deixa de perguntar ‘isso é real?’ e passa a questionar apenas se aquilo confirma o que já acredita”. Ou seja, o debate sai do campo da verificação e entra no da adesão simbólica. Mesmo quando desmentidos, deepfakes causam dano pela erosão da confiança na informação, nos mediadores e nas instituições democráticas.

E aqui está o paradoxo: desde junho de 2025, o TSE conduz um grupo de trabalho dedicado ao tema, liderado pela ministra Cármen Lúcia, após a viralização de vídeos hiper-realistas produzidos por IA. Mas o problema central, como afirma Alexandre Basilio, pesquisador da Abradep, não é tecnológico — é de confiança. “A regra central é a proteção da confiança do eleitor”, diz.

Nas eleições municipais de 2024, o TSE regulamentou pela primeira vez o uso de IA, proibindo deepfakes e restringindo robôs no contato com eleitores. A resolução diferenciou o uso de conteúdo artificial permitido (desde que claramente identificado) das manipulações proibidas, como áudios ou vídeos que alterem imagem ou voz de alguém para favorecer ou prejudicar candidaturas. O uso de conteúdo sintético é permitido, desde que haja informação clara, visível e acessível ao eleitor de que aquele material foi fabricado ou manipulado com auxílio de inteligência artificial.

Mas mesmo com essas regras, especialistas preveem que grande parte das infrações não partirá das campanhas oficiais, mas de apoiadores, influenciadores e perfis informais. Basilio antecipa um cenário dominado por memes e conteúdos altamente compartilháveis, que podem rapidamente alcançar milhões de pessoas. A repetição de conteúdos ofensivos, mesmo após remoções, deve criar uma “corrida de gato e rato” entre plataformas e Justiça Eleitoral.

70% dos Alunos Já Usam IA, Mas Apenas 32% Têm Instrução: A Lacuna Educacional Exposta

Enquanto o TSE corre contra o relógio, o sistema educacional brasileiro enfrenta uma lacuna estrutural. Segundo editorial do O Globo, cerca de 70% dos estudantes do ensino médio afirmam já usar IA, mas apenas 32% dizem ter recebido instruções da escola para aplicar a nova tecnologia, conforme a última edição da pesquisa Cetic.br.

E aqui está a contradição: enquanto prometem incluir aulas de educação digital e midiática no currículo do ensino básico em 2025, o fato é que a tecnologia já está sendo usada sem orientação pedagógica clara. Professores devem estar capacitados a aproveitar a IA no aperfeiçoamento de suas aulas e a instruir os alunos para que a usem do modo mais produtivo. Mas isso não está acontecendo.

Há riscos concretos. Pesquisa da Microsoft e da Universidade Carnegie Mellon revelou que níveis maiores de confiança na IA estão associados a menor capacidade de pensamento crítico. Quando um robô de IA executa tarefas essenciais ao aprendizado, o aluno sai prejudicado. Há também o perigo de ele aprender errado, já que as ferramentas de IA são abastecidas com dados que não passam por checagens rígidas, e alucinações — embora menos frequentes nos modelos mais recentes — ainda são comuns.

O editorial cita um exemplo inspirador: a Estônia, ao constatar que 90% dos alunos do ensino médio já usavam chatbots, conseguiu que a OpenAI adaptasse o ChatGPT ao uso escolar. Agora o robô responde a questionamentos com novas perguntas, para estimular o aprendizado, e não com respostas diretas. É exatamente o tipo de abordagem que o Brasil precisa — mas ainda não implementou em escala.

Como diz o editorial: “Quem sabe, em vez de ser um meio para alunos fraudarem provas e trabalhos escolares, a IA não traz uma oportunidade para o Brasil recuperar seu atraso na educação?” A pergunta é justa. Mas exige ação coordenada.

Grok de Elon Musk: Quando a Ausência de Limites Revela o Pior da IA

E se você acha que o problema da IA é apenas teórico, considere o escândalo do Grok, o chatbot de Elon Musk. Como mostra a Veja, o recurso apelidado de “spicy mode” no Grok incentivou a criação de fotos e vídeos com recriação de registros sexualizados de meninas e mulheres.

Na Indonésia e na Malásia, o Grok foi banido temporariamente. No Reino Unido, a Ofcom anunciou severa investigação, ecoando uma decisão de autoridades da União Europeia. No Brasil, o Instituto de Defesa de Consumidores (Idec) pediu ao governo federal, em 12 de janeiro, a suspensão da ferramenta. Julia Abad, pesquisadora do Idec, afirmou que é “uma medida para evitar outros danos, enquanto não há legislação específica”.

Pesquisadores da AI Forensics analisaram mais de 20.000 imagens aleatórias geradas pelo Grok e 50.000 solicitações de usuários entre 25 de dezembro e 1º de janeiro. Eles encontraram alta prevalência de termos como “remover roupa” e “colocar biquíni”, com mais da metade dos registros gerados contendo indivíduos com vestimentas mínimas. Outro estudo revelou que, entre 5 e 6 de janeiro, o Grok gerou uma média de 6.700 montagens indevidas por hora, ante 79, em média, de cinco sites concorrentes.

Elon Musk respondeu de forma desdenhosa, afirmando que a responsabilidade legal recai sobre o indivíduo que cria e carrega o conteúdo ilegal, e não sobre a empresa. A estratégia visa menos barreiras para mais acesso, viralização e tráfego de dados. É o oposto da governança responsável.

Meta e o Bug que Expôs a Fragilidade da Automação: Quando a IA Usa Fotos Sem Autorização

E se você acha que o problema é só com empresas de Elon Musk, considere o caso da Meta. Como mostra a Folha de S.Paulo, um bug na plataforma de automação de anúncios da Meta com inteligência artificial fez uma empresa brasileira mostrar fotos da filha de uma cliente numa peça publicitária que buscava vender produtos para a pele. Nunca houve autorização da filha para o uso da imagem.

O problema começou há 30 dias, quando a farmacêutica Fátima Costa, 65, notou que os anúncios da marca Principia no Instagram passaram a exibir as fotos de sua filha, a jornalista da Folha Gabriela Mayer. A imagem de Gabriela exibida na peça publicitária é a mesma que aparece em seu perfil no Instagram.

Funcionários da Meta ouvidos sob condição de anonimato dizem que foi um erro em plataforma da empresa — uma alucinação, como se diz no jargão da inteligência artificial. De acordo com eles, o problema afeta uma pequena quantidade de usuários. A Principia afirma que nunca utilizou a imagem vista pela reportagem em seus materiais de divulgação. “Usamos apenas imagens com autorização de uso, diretamente com a Meta, sem envolvimento de agências. Questionamos a Meta assim que tivemos conhecimento desse caso e estamos aguardando posição quanto a autenticidade e causa do possível uso dessa imagem nesses anúncios.”

A empresa usa uma ferramenta chamada Meta Advantage+ Creative, que promete usar informações de como os usuários interagem com propagandas para editar automaticamente as imagens e entregar conteúdo personalizado. Mas aqui está o problema: a Meta se isenta de responsabilidade sobre os textos ou imagens criados pela Meta Advantage+. “Também não damos nenhuma garantia de que o conteúdo de anúncios será único e protegido por direitos de propriedade intelectual ou de que ele não violará os direitos de terceiros”, diz a empresa em seus termos de uso.

Como afirma a professora de direito digital da Uerj, Chiara Teffe, ainda seria possível contestar quem é o responsável pelo uso indevido de imagem e de dados pessoais. Hoje, não há precedentes para a situação.

IA e Terras Raras: A Corrida Geopolítica Que o Brasil Observa de Fora

Enquanto enfrentamos desafios institucionais e educacionais, a mineradora canadense Aclara Resources assinou um acordo de pesquisa e desenvolvimento com um laboratório nacional do Departamento de Energia dos Estados Unidos para aplicar inteligência artificial no processo de separação de terras raras pesadas. O desenvolvimento será conduzido no Argonne National Laboratory, um dos principais centros de pesquisa do governo americano.

O objetivo é melhorar a eficiência do processo e reduzir incertezas na operação industrial. Na prática, a tecnologia cria uma representação virtual do processo industrial, construída a partir de dados operacionais reais, modelos matemáticos e algoritmos de inteligência artificial. A empresa canadense é dona do Projeto Carina, localizado em Nova Roma (GO). O projeto já conta com financiamento do governo americano, por meio da U.S. International Development Finance Corporation.

O Brasil possui a segunda maior reserva mundial de terras raras, atrás apenas da China. Mas, como mostra a Gazeta do Povo, o país patina em disfunções conhecidas: juros estratosféricos, dívida pública crescente, insegurança jurídica e ausência de uma política industrial coordenada, resultando na exportação de matéria-prima bruta.

O Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) alerta que o desafio é “deixar de ser um país de excepcional dotação geológica — apenas ter a riqueza — para se tornar um país com vocação mineral — usar a riqueza para desenvolvimento nacional. Isso requer política de Estado“.

Thiago Sbardelotto, economista da XP Investimentos, destaca a urgência de reformas estruturais. A janela de oportunidade é estreita, com Austrália, Chile e Vietnã já avançando em cadeias alternativas à China.

A Estratégia Dupla das Petrolíferas: Usar IA e Vender Energia Para Ela

E enquanto o Brasil exporta matéria-prima bruta, a indústria do petróleo descobriu que o apetite energético da IA não é um desafio — é sua tábua de salvação para o crescimento, como mostra a Forbes Brasil.

A estratégia das gigantes do petróleo envolve lucrar duas vezes com a Inteligência Artificial (IA): usando-a para extrair combustíveis fósseis com mais eficiência e, subsequentemente, vendendo energia (gerada a gás natural) para os data centers que alimentam a IA. Essa estratégia dupla pode consolidar a dependência de petróleo por décadas.

A Abu Dhabi National Oil Company (ADNOC) implementou mais de 30 ferramentas de IA, gerando US$ 500 milhões em valor e reduzindo até 1 milhão de toneladas de CO₂ entre 2022 e 2023. A Chevron estaria desenvolvendo sua primeira usina de gás natural de aproximadamente 2,5 GW (expansível para cerca de 5 GW) no oeste do Texas, com início de operações previsto para 2027, visando um cliente de data center não revelado.

A grande questão: as emissões dos data centers deverão crescer de 180 milhões de toneladas hoje para 300 a 500 milhões de toneladas até 2035 globalmente. O treinamento do GPT-3 consumiu 1.287 megawatt-hora (MWh), gerando 552 toneladas de CO₂. Os combustíveis fósseis atendem 60% da demanda de energia dos data centers.

Semantix e Huawei: A IA Brasileira Que Entra no Mercado Global

Mas nem tudo são lacunas. A Semantix anunciou a homologação de sua suíte de IA no Huawei Cloud Marketplace, a KooGallery, ampliando o alcance internacional das soluções da companhia por meio de canais digitais de nuvem.

Com a parceria, a suíte Semantix AI, que inclui as soluções LinkAPI, Agentix e Safetix, torna-se a primeira oferta brasileira de IA baseada em agentes autônomos com governança integrada a entrar no ecossistema global da Huawei Cloud. A iniciativa amplia o acesso às tecnologias da empresa em mercados da Ásia, Oriente Médio e América Latina.

O Safetix, por sua vez, atua na camada de governança da IA, oferecendo rastreabilidade, auditoria e monitoramento contínuo desde a origem dos dados até as decisões automatizadas. As soluções já estão disponíveis na KooGallery para clientes corporativos em diferentes regiões.

De acordo com Leonardo Poça D’Água, CEO da Semantix, “a governança passou a ser condição operacional para adoção de IA em larga escala”. A homologação no marketplace da Huawei permite levar essa abordagem a novos mercados com suporte de uma plataforma global de nuvem.

Por Que Estas 24 Horas Importam: A Urgência da Governança e da Educação

Vejo um padrão claro nessas 24 horas: o Brasil está lidando com a IA de forma reativa, não proativa. O TSE corre contra o relógio para aprovar regras até 5 de março. O sistema educacional constata que 70% dos alunos já usam IA, mas apenas 32% têm instrução. Empresas exportam matéria-prima bruta enquanto outros países agregam valor com IA. E plataformas como Grok e Meta expõem a fragilidade da automação sem limites.

Mas há sinais promissores. A Semantix mostra que é possível desenvolver IA com governança integrada e entrar em mercados globais. A Aclara Resources demonstra que o Brasil pode atrair investimentos estratégicos em minerais críticos. E o TSE, mesmo sem base regulatória prévia, está tentando equilibrar liberdade de expressão e integridade eleitoral.

O que falta? Coordenação. Como mostram as notícias sobre terras raras, o desafio não é apenas ter a riqueza — é usar a riqueza para desenvolvimento nacional. E isso requer política de Estado. O mesmo vale para a IA: não basta ter talentos, startups e recursos. É preciso uma estratégia coordenada que conecte educação, regulação, investimento e governança.

No meu trabalho com empresas, governos e ecossistemas de inovação, vejo que a IA não é um destino — é um caminho. E esse caminho exige três pilares: alfabetização digital universal, para que todos saibam usar a IA de forma crítica e produtiva; governança responsável, para que plataformas não operem sem limites; e política industrial coordenada, para que o Brasil agregue valor e não apenas exporte matéria-prima.

Como diz o editorial do O Globo: “Quem sabe, em vez de ser um meio para alunos fraudarem provas e trabalhos escolares, a IA não traz uma oportunidade para o Brasil recuperar seu atraso na educação?” A mesma pergunta vale para a democracia, a economia e a governança. A oportunidade está aí. A questão é se vamos aproveitá-la com estratégia ou apenas reagir à próxima crise.

O Que Fazer Agora: Da Reação à Estratégia

Se você lidera uma empresa, um governo ou uma organização, estas 24 horas deveriam ser um alerta. A IA já está nas mãos da população — mas sem instrução, sem governança clara e sem estratégia coordenada. O que você pode fazer?

  • Invista em alfabetização digital: Não basta ter ferramentas de IA. É preciso capacitar equipes, alunos e cidadãos a usar a tecnologia de forma crítica e produtiva.
  • Exija governança responsável: Não aceite plataformas que se isentam de responsabilidade. Cobre transparência, rastreabilidade e limites claros.
  • Conecte regulação e inovação: Regras não são inimigas da inovação — são pré-condições para a confiança. Participe de discussões sobre regulação de IA, como o PL 2.338/2023.
  • Agregue valor localmente: Não seja apenas fornecedor de matéria-prima (dados, talentos, recursos). Desenvolva soluções, produtos e serviços que capturam valor na cadeia de IA.

Nos meus programas de mentoria e consultoria, trabalho com executivos, empresas e governos exatamente nessa fronteira: como transformar a IA de ameaça em oportunidade, de reação em estratégia, de lacuna em vantagem competitiva. Porque a IA não vai esperar. E o Brasil não pode ficar para trás.

A corrida já começou. A questão é se vamos participar dela com clareza, governança e propósito — ou apenas assistir de fora enquanto outros definem as regras do jogo.


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