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Os últimos dias trouxeram uma combinação reveladora: a ASML, fabricante holandesa de equipamentos para semicondutores, registrou pedidos trimestrais recordes de 13,16 bilhões de euros (US$ 15,85 bilhões), um aumento de 85,6% em relação ao ano anterior, movido pelo apetite voraz por chips avançados para inteligência artificial. No mesmo horizonte temporal, o YouTube anunciou que vai usar IA para estimar a idade de usuários no Brasil, aplicando proteções automáticas a menores de 18 anos, e profissionais freelancers relataram perdas de até 90% dos clientes desde que ferramentas generativas como o ChatGPT se popularizaram.
Como é possível que bilhões fluam para a infraestrutura da IA enquanto o tecido profissional de milhares de pessoas se desintegra?
A resposta está na diferença brutal entre onde o dinheiro corre e onde os impactos se materializam. E neste momento específico, temos a oportunidade rara de enxergar ambos os lados da mesma moeda: o crescimento robusto do hardware que alimenta a IA e o custo humano imediato que ela está cobrando.
Gastos Recordes em Semicondutores: O Combustível Invisível da IA
A ASML não é uma empresa qualquer. Ela fabrica as máquinas que produzem os chips mais avançados do mundo, aqueles que tornam possível treinar e rodar modelos de linguagem como GPT, Gemini e LLaMA. Seus sistemas de litografia ultravioleta extrema (EUV) são praticamente insubstituíveis — não existe alternativa viável no mercado global.
O fato de a empresa ter registrado um salto de 85,6% nos pedidos trimestrais sinaliza que o boom da IA não é marketing. É investimento estrutural. Empresas como TSMC, Samsung e Intel estão encomendando equipamentos bilionários para ampliar capacidade de fabricação, antecipando demanda contínua por décadas.
According to report from Valor Econômico, este resultado “é um sinal de que os gastos dos clientes para produzir chips avançados, impulsionados pelo boom da inteligência artificial, permanecem fortes, apesar dos temores de uma bolha de mercado.”
Traduzindo: mesmo com receios de sobreinvestimento e eventual estouro de bolha, o consenso entre os gigantes da tecnologia é que a IA veio para ficar. E isso exige silício. Muito silício.
Essa dinâmica tem implicações geopolíticas profundas. A corrida por capacidade de fabricação de chips avançados está no centro da disputa tecnológica entre Estados Unidos e China. Quem controla a produção de semicondutores controla a infraestrutura da próxima geração de produtos digitais, sistemas de defesa, automação industrial e, claro, inteligência artificial.
YouTube Usa IA Para Estimar Idade: Proteção ou Monitoramento Comportamental?
Enquanto isso, do outro lado do espectro, o YouTube anunciou a expansão para o Brasil de um sistema de IA que estima a idade dos usuários com base em padrões de uso: tipos de vídeos pesquisados, categorias assistidas e longevidade da conta.
Quando o sistema identifica um usuário como menor de 18 anos, aplica automaticamente medidas como desativação de publicidade personalizada, ativação de ferramentas de bem-estar digital e limitação de recomendações repetitivas de conteúdo sensível.
A intenção declarada é proteger adolescentes. A pressão global por ambientes digitais mais seguros para crianças é real e necessária. Plataformas como Roblox, TikTok e ChatGPT já implementaram sistemas similares.
Mas vamos ser francos: essa tecnologia também representa uma expansão massiva de monitoramento comportamental. A IA não está apenas inferindo idade — está mapeando preferências, tempo de atenção, padrões emocionais e vulnerabilidades cognitivas.
O professor Paulo Almeida, especialista em mídias digitais da UnB, destacou na reportagem do Correio Braziliense que “isso quebra a lógica de escalada algorítmica, em que o próprio sistema vai intensificando a exposição conforme o histórico de consumo do usuário.”
Isso é avanço. Mas ele também alerta: “surgem desafios importantes, como possíveis erros de classificação, questões de privacidade e o uso contínuo de monitoramento comportamental.”
A questão central aqui não é se a proteção de menores é importante — ela é. A questão é: quem audita os critérios? Quem garante que esses dados não serão usados para outros fins? E o que acontece quando um adulto é classificado erroneamente e precisa enviar documentos oficiais para “provar” sua idade?
Estamos normalizando a vigilância algorítmica em nome da segurança, e isso merece um debate público muito mais robusto do que estamos tendo.
Freelancers Perdem 90% dos Clientes: O Custo Humano da Automação Acelerada
E então chegamos ao lado mais doloroso dessa história.
Em uma reportagem profunda e necessária, o Tecnoblog ouviu dezenas de freelancers brasileiros que viram suas carreiras desmoronarem desde que ferramentas como ChatGPT, Midjourney e outros sistemas generativos se popularizaram.
Os relatos são contundentes:
- Paula, redatora: demanda caiu mais de 50% desde 2022.
- Fabio Farro, roteirista: perdeu 90% dos clientes entre 2023 e 2024.
- Beatriz, produtora de textos: perdeu todos os clientes (mais de dez marcas) antes de 2024.
- Ricardo, coordenador de marketing: empresas cortaram verbas de marketing para “demonstrar investimento em IA.”
- Viviane Fortes, redatora publicitária: viu redatores em uma agência serem substituídos por “operadores de ChatGPT.”
Esses não são casos isolados. Eles representam uma tendência estrutural: a IA generativa está sendo usada não para aumentar a capacidade criativa, mas para substituir trabalhadores qualificados por uma alternativa mais barata e rápida, mesmo que inferior em qualidade.
E aqui está o ponto que mais me incomoda: muitas vezes, a substituição nem é justificada por desempenho superior da IA. É justificada pela pressão de “mostrar que a empresa está investindo em inovação.”
Como Ricardo relatou: “Desde 2023, sempre que trocou de empresa, foi para uma que pagava menos.” Viviane Fortes viu sua tabela de preços congelada desde a pandemia e planeja migrar para análise de dados ou setor público.
Mariana, designer de livros, descobriu que suas capas estavam sendo feitas por IA ao checar a página de clientes na Amazon. Ela se recusa a fazer “lavagem de arte” — pegar rascunhos de IA e assinar como trabalho humano.
O impacto emocional é devastador. Ricardo está em tratamento para ansiedade desde 2023. Farro precisou voltar a morar com a mãe. Paula sente que seu trabalho virou commodity.
Estudo Aponta Que IA Falha em 97% das Tarefas Profissionais Complexas
Ironicamente, enquanto freelancers perdem clientes para ferramentas de IA, um estudo recente do Center for AI Safety e da Scale mostrou que modelos avançados de IA falharam em mais de 97% das tarefas profissionais reais.
O estudo submeteu ferramentas como Manus AI, Grok 4, Sonnet 4.5, GPT-5 agent e Gemini 2.5 Pro a projetos completos de trabalho remoto — design de produtos, animação de vídeo, análise de dados, arquitetura. Em quase todos os casos, os sistemas não conseguiram entregar trabalhos com qualidade aceitável sem intervenção humana significativa.
A melhor taxa de automação registrada foi de apenas 2,5%.
Segundo os pesquisadores, as falhas não são pontuais — são estruturais. A IA tem dificuldade para:
- Entender ambiguidades no briefing
- Manter consistência ao longo de tarefas complexas
- Adaptar decisões conforme surgem novos problemas
- Apresentar aprendizado contínuo durante o projeto
In other words: a IA funciona bem como ferramenta de apoio, mas falha miseravelmente quando assume projetos inteiros.
E no entanto, trabalhadores estão sendo substituídos em massa. Não porque a IA seja melhor. Mas porque é mais barata.
CNJ Tenta Traçar Limites Éticos, Mas Lacunas Preocupam
O uso de IA no setor público também está acelerando. Recentemente, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) publicou a Resolução nº 615/2025, que revoga a pioneira Resolução nº 332/2020 e atualiza as diretrizes para uso de IA no Judiciário brasileiro.
Em análise publicada no Conjur, especialistas destacam avanços importantes:
- Reconhecimento institucional de que algoritmos não são neutros
- Vedação de sistemas que avaliem “traços de personalidade” para prever reincidência criminal
- Proibição de reconhecimento de emoções por biometria
- Vedação de ranqueamento de pessoas com base em situação social para avaliar “plausibilidade de seus direitos”
Essas são “linhas vermelhas” fundamentais. Elas protegem contra distopias judiciais em que a máquina decide quem merece liberdade ou quem é “perigoso” com base em perfis raciais ou socioeconômicos.
Mas a resolução também apresenta fragilidades graves:
- Transparência comprometida: permite auditoria “sem acesso irrestrito ao código-fonte”, protegendo segredo comercial em detrimento da explicabilidade
- Diversidade como item dispensável: a norma exige equipes diversas, mas permite exceções “para garantir eficácia e velocidade”, tratando inclusão como acessório
- Dados não necessariamente governamentais: fontes de dados são “preferencialmente” públicas, abrindo brecha para bases privadas enviesadas
Como alertam os analistas do Conjur: “A promessa é eficiência. O risco, infelizmente, ainda é a discriminação sob a aparência de neutralidade.”
Gargalos de Conhecimento: Trabalhadores Correm Para Se Qualificar
Diante desse cenário, trabalhadores brasileiros não estão esperando as empresas estruturarem programas de capacitação. Segundo dados da Unico Skill divulgados pelo Earth, a busca por cursos de inteligência artificial cresceu mais de 840% em janeiro de 2026, na comparação com janeiro de 2025.
Profissionais acima de 40 e 50 anos estão liderando essa transformação, buscando cursos como “Inteligência Artificial para o Crescimento Profissional” e “IA Aplicada a Negócios.”
Além disso, houve um crescimento de 2.800% na demanda por cursos de Desenvolvimento de Pessoas, indicando que os profissionais entendem que a IA exige liderança humana calibrada, e não apenas domínio técnico.
Joca Oliveira, CEO da Unico Skill, resume bem: “O relatório do WEF destaca que a adoção bem-sucedida da IA começa com as pessoas, e não com a tecnologia isolada. O que estamos vendo em nossa base é a materialização disso: o trabalhador percebeu que, para se manter relevante, precisa dominar a ferramenta.”
Empresas que investem em qualificação via Unico Skill registram 30% menos turnover, criando o ambiente de estabilidade necessário para transformação digital sustentável.
Varejo Global Põe a IA nas Prateleiras: Da Experimentação à Infraestrutura
Enquanto isso, o varejo global consolidou o uso de IA para decisões estratégicas. Na NRF Retail’s Big Show, realizada em Nova York em janeiro, o recado foi claro: a IA deixou de ser vitrine e passou a ser infraestrutura invisível para garantir produtividade, eficiência e margem.
Grandes redes agora usam algoritmos para:
- Previsão de demanda
- Gestão de estoques
- Redução de rupturas
- Precificação dinâmica
- Desenho de promoções
A promessa é simples: vender melhor, com menos desperdício e mais margem. E os resultados começam a aparecer no EBITDA.
No Brasil, a ABRAS projeta crescimento de 3,2% no consumo nos lares em 2026, sustentado por renda real em alta, mercado de trabalho aquecido e programas de transferência. Mas o consumidor está mais seletivo, atento a preço e promoções, exigindo que o varejo seja mais preciso nas decisões.
IA não é mais experimento. É a camada operacional que define quem ganha e quem perde no jogo do varejo moderno.
Pioneiro da IA Alerta: “Efeito Manada” Está Levando a Tecnologia Para Beco Sem Saída
E para fechar esse panorama complexo, Yann LeCun, pioneiro em IA e vencedor do Prêmio Turing, alertou que o “efeito manada” está levando o Vale do Silício para um beco sem saída.
LeCun, que foi cientista-chefe de IA da Meta por mais de uma década e deixou a empresa em novembro para fundar a Advanced Machine Intelligence Labs (AMI Labs), critica a obsessão por grandes modelos de linguagem (LLMs).
Segundo ele: “LLMs não são um caminho para a superinteligência, nem para uma inteligência em nível humano. Eu digo isso desde o começo.”
LeCun defende que os LLMs têm limites estruturais: não conseguem planejar de forma sólida, não compreendem a complexidade do mundo físico e não preveem resultados de suas próprias ações.
Ele alerta: “Existe esse efeito manada em que todo mundo no Vale do Silício precisa trabalhar na mesma coisa”, o que sufoca abordagens mais promissoras a longo prazo.
Enquanto empresas americanas recuam na postura de código aberto em busca de vantagem competitiva, LeCun alerta que “as boas ideias estão vindo da China” e critica o “complexo de superioridade” do Vale do Silício, que impede o reconhecimento de inovações vindas de outros lugares.
What Does It All Mean For You?
These 24 hours reveal something fundamental: o dinheiro está indo para um lugar, mas o impacto está acontecendo em outro.
Bilhões fluem para semicondutores, chips avançados e infraestrutura de nuvem. Mas o custo humano imediato está recaindo sobre freelancers, trabalhadores criativos, profissionais de marketing e comunicação que estão vendo suas carreiras desmoronarem.
A IA está sendo aplicada para monitorar comportamento de adolescentes, tomar decisões judiciais e otimizar margens no varejo. Mas quem audita? Quem garante transparência? Quem protege os trabalhadores?
E o mais assustador: estudos mostram que a IA falha em 97% das tarefas profissionais complexas, mas trabalhadores continuam sendo substituídos.
Não porque a IA seja melhor. Mas porque é mais barata.
Então, o que você precisa fazer?
First: entenda que a IA não é neutra. Ela carrega vieses, falhas e limitações. Se você lidera uma equipe, não terceirize cognição para algoritmos sem supervisão humana qualificada.
Second: invista em qualificação contínua. Não para “competir com a IA”, mas para dominar a ferramenta e aplicá-la de forma crítica, ética e estratégica.
Third: cobre transparência. Se sua empresa usa IA para decisões críticas — contratação, promoção, análise de desempenho, precificação — exija auditoria, explicabilidade e diversidade nas equipes técnicas.
Bedroom: não caia no “efeito manada”. Não faça IA porque todo mundo está fazendo. Faça IA porque resolve um problema real, mensurável, e porque você tem governança para evitar danos colaterais.
E se você é freelancer ou profissional criativo sentindo o impacto, saiba: não usar IA virou diferencial para clientes que valorizam qualidade, originalidade e responsabilidade ética.
Esse é o momento de consolidar seu posicionamento, documentar sua metodologia e comunicar de forma clara por que o trabalho humano ainda importa — e sempre vai importar.
Meu Trabalho é Ajudar Você a Navegar Esse Cenário
No meu trabalho com empresas, governos e organizações de apoio ao empreendedorismo, ajudo líderes a implementarem IA de forma estratégica, ética e sustentável. Não como substituto de pessoas, mas como amplificador de capacidades humanas.
Se você lidera uma equipe e quer entender como aplicar IA sem perder a dimensão humana, se busca construir governança real para evitar vieses discriminatórios, ou se precisa qualificar seu time para trabalhar com IA de forma crítica e criativa, meus programas de mentoring e cursos imersivos foram desenhados justamente para isso.
Não se trata de surfar o hype. Trata-se de construir sistemas que funcionam, que respeitam pessoas e que geram resultados mensuráveis sem produzir injustiças automatizadas.
Porque no final das contas, a IA que vale a pena é aquela que fortalece o trabalho humano, não a que o substitui por conveniência financeira.
E se há algo que estas 24 horas nos ensinam, é que precisamos dessa clareza agora — antes que o custo humano se torne irreversível.
